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Geral | 19/10/2015 | 09:24

Aumenta número de casos em edificações infestados por urubus

Prédios e casas da região, tem presença da ave que se alimenta de carniça e materiais em decomposição.

Foto: Jornal Pauta da Semana

 

Logo pela manhã e à tardezinha, as aves se concentram em diversas residências em Joaçaba e Herval d’ Oeste. A cena já é conhecida pelos moradores, porém neste ano, os urubus ampliaram sua área de atuação e, está aumentando. Atraídos pelo lixo deixado pelos visitantes e pelos prédios altos, onde costumam botar seus ovos, eles estão sempre ali. Conforme Mario Arthur Favretto, biólogo, com especialização em gestão ambiental, atualmente mestrando no Programa de Pós-graduação em Ecologia e Conservação da UFPR, explica que a presença da ave é fortemente associada à presença humana, principalmente o mais comum na região, a espécie denominada urubu-de-cabeça-preta (Coragyps atratus). “Nestes locais podem se alimentar de resíduos humanos e animais atropelados. Esta espécie não costuma ocorrer em áreas florestais e assim é beneficiada pela ocupação humana, ao contrário de outra espécie menos abundante, mas que também ocorre na região, o urubu-de-cabeça-vermelha (Cathartes aura) que prefere áreas rurais e florestais, e não costuma voar em bandos como o urubu-de-cabeça-preta”, disse.

Sem predadores naturais, o urubu tem o hábito de colocar seus ovos em locais altos. Põe dois ovos por vez. Após o nascimento, o filhote leva cerca de dez semanas até seu primeiro vôo. “É importante ressaltar que o período de primavera e verão é a época reprodutiva dos urubus, como de muitas outras aves. Durante este período podem tentar explorar locais em busca de um lugar que possa ser adequado para construírem um ninho. Então fazendo a associação de prédios com afloramentos rochosos, e sacadas, com locais seguros similares a cavernas e cavidades nas rochas, pode-se deduzir que a provável similaridade entre o ambiente natural e artificial, é uma das razões destas aves tentarem entrar em sacadas e apartamentos principalmente durante o período reprodutivo”, explica Mario.

Mario Arthur Favretto, realiza trabalhos com aves desde 2006, e durante estes anos destaca que sempre observou urubus pousados sobre os topos de prédios na área urbana de Joaçaba. “Eles estão presentes há anos na área urbana e o que pode gerar essa impressão de infestação pode ser um aumento populacional que implicou na busca por locais mais diversos para nidificação ou simplesmente um aprendizado de que os apartamentos e prédios seriam locais seguros e isto levaria os urubus a terem um comportamento mais destemido em relação à exploração destes locais para fins de nidificação”, afirma o biólogo, salientando que seriam necessárias pesquisas de monitoramento para efetivamente descobrir se a população está aumentando e também descobrir os locais que estão servindo de fonte de alimentação.

Mario é autor de 37 artigos e notas científicas sobre biologia, principalmente fauna e flora de Santa Catarina, autor e organizador de seis livros na área de biologia, co-autor de cinco capítulos  na área de biologia. Conforme o biólogo, como qualquer outra espécie animal, pode haver riscos associados. Em um estudo realizado no Chile, sobre a presença de bactérias em urubu-de-cabeça-preta (Coragyps atratus), verificou que de 30 urubus, 27 possuíam cepas da bactéria Staphylococcus aureus na boca e dois possuíam cepas de bactéria Escherichia coli patógena na cloaca (por onde são liberadas as excretas e fezes).  Neste caso, não foram considerados como grandes disseminadores de doenças bacterianas por estas vias, pois o pH de seus estômagos elimina a maior parte das bactérias adquiridas do alimento em decomposição. Mas contaminações por interação ou contato com a espécie, acredito que não poderiam ser descartadas. Os pesquisadores consideraram que o urubu-de-cabeça-preta não agiria como um disseminador de agentes patogênicos, justamente pelo efeito de sua digestão sobre as bactérias, mas sempre é necessário ter cautela, devido a possibilidade destas aves se infectarem com cepas bacterianas resistentes ou em fase de esporulação.

 

Muitas pessoas podem pensar na eliminação dos urubus como forma de combater sua presença, fato que é crime. São animais silvestres protegidos pela Lei de Crimes Ambientais. Matar um urubu pode resultar em multa e até um ano de prisão. “Certamente com o aumento populacional destas aves em outros locais, logo a área urbana pode voltar a ser ocupada. A principal ação com objetivo local que pode ser realizada é assustar os urubus para que eles aprendam que os prédios não são locais agradáveis e seguros para a nidificação, é comum para controle de pombos o uso de fogos de artifício para assustá-los e afugentá-los, porém o uso destes materiais em área urbana pode ser um risco. Também poderiam ser utilizadas estruturas para impedir ou bloquear o acesso destas aves a locais que podem servir para construção dos ninhos, forçando-as a buscarem outras áreas para nidificação”, destaca o biólogo.

 

“É importante ter em mente que, nesta época de reprodução dos urubus, ao encontrar algum exemplar explorando uma sacada ou tentando explorar um apartamento, o ato de afugentá-lo pode servir como um sinal para a ave que ali não é um bom local para nidificar, e estes poderão aprender a evitar a presença humana”, afirma Mario. “Mas sempre poderão ocorrer situações como essa durante os períodos reprodutivos, devido, conforme mencionei, a similaridade entre estruturas de concreto com grande altura e afloramentos rochosos de morros. Recentemente também observei situação similar em Curitiba e em outros grandes centros urbanos também é comum aves como falcões e gaviões usarem estruturas de prédios como locais de nidificação. Porém, se for verificado que realmente está ocorrendo um aumento populacional dos urubus, é importante identificar onde eles estão encontrando os recursos alimentares que resultaram nesse aumento de sua população. E, feito isso, eliminar esta fonte alimentar ou impedir que os urubus tenham acesso a estes recursos. Desta forma, sua população poderá lentamente sofrer uma redução ou deslocar-se para outras áreas em busca de alimento”.

 

 

 

Saiba mais - Símbolo de mau agouro, o Coragyps atratus, ou urubu-de-cabeça-preta, alimenta-se de carniça e outros materiais em decomposição.

 

Apesar de todos estes riscos, é bom ressaltar que estas aves desempenham um importante papel ecológico na eliminação de matérias em decomposição, e com sua ingestão, acabam por vezes eliminando diversos patógenos que estariam se proliferando nelas podendo contaminar humanos ou por meio da decomposição se infiltrar no solo e contaminar lençóis freáticos. Tanto que, para fins de curiosidade, em muitos países da Europa e Ásia, 99% da população de abutres foi eliminada devido ao uso de diclofenaco para fins veterinários, quando alguma carcaça de animal ficava disponível para estas aves necrófagas, elas acabavam sendo intoxicadas por este medicamento, fato que em 2006, levou a substituição do diclofenaco por meloxicam para uso veterinário na Europa, de forma a tentar aumentar as populações de abutres e recuperar as funções ecológicas desempenhadas por estas aves.

 

Curiosidade

Você sabia que os urubus...

- podem localizar um objeto de 1 metro a 1.200 metros de altura;

- são capazes de ficar dias sem comer e voar até 300 quilômetros atrás de alimento;

- botam quatro ovos por ano, dois de cada vez;

- pesam em média de 2 a 3 quilos;

- vivem até trinta anos.

"cinco capítulos de livros na área de biologia",

Fonte: Jornal Pauta da Semana - Paula Patussi
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